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O lado negro de Portugal

O lado negro de Portugal

O lado negro de Portugal

Portugal está em “altas”. São as vitórias desportivas. É o festival da canção. São os números da economia. Enfim, é só boas notícias!

Veja-se o exemplo do Turismo. Nunca esteve tão bem, e as nossas principais cidades desenvolvem-se a olhos vistos, em grande parte com base nesse grande afluxo de turistas. Lisboa e Porto são, atualmente, cidades com um nível de atratividade altíssimo, rivalizando com as melhores cidades europeias. Portugal sabe receber como poucos, e a segurança é um ativo muito valioso nos dias de hoje.

Mas existe o outro lado, o nosso lado negro… O lado negro de Portugal é o país esquecido, território fértil dos incêndios florestais.

Tenho vários amigos estrangeiros que, recorrentemente, me fazem a mesma pergunta: como é possível que em Portugal existam, todos os anos, tantos incêndios florestais? Bem, na verdade eu também não sei ao certo. Todos os verões pululam nos media especialistas na matéria, cada um com o seu ponto de vista, certamente baseado em conhecimento e experiência que eu obviamente não contesto. Não é a minha área de conhecimento, e portanto limito-me simplesmente a ouvir quem sabe e a esperar que os responsáveis atuem em conformidade com os pareceres técnicos. Mas não deixo de refletir sobre esta problemática… e é esse convite à reflexão que lhe faço a si, que está a ler este artigo.

Deste modo, tanto a diminuição da população nas áreas florestais como o seu acelerado envelhecimento constituem um factor de risco de incêndio que, associado à falta de mão-de-obra jovem e ao absentismo dos proprietários florestais, obrigam a deixar as matas entregues a si próprias; em consequência, a falta de limpeza muito irá facilitar a progressão do fogo. (…). Outro aspecto vital para a economia florestal dos anos futuros é que, a manter-se o atual ritmo dos fogos, cuja destruição é muito superior à capacidade de regeneração das árvores, a floresta está condenada. De facto, a área ardida de incultos vem aumentando nos últimos anos, proporcionalmente à área ardida em floresta.” Estes excertos pertencem a um artigo publicado em 1991 (!!!), da autoria do Prof. Luciano Lourenço. Pelos vistos o problema já não é novo. Apesar de aquelas palavras terem mais de 25 anos, soam tragicamente atuais, ainda para mais tendo em conta os acontecimentos recentes em Pedrógão Grande.

Os especialistas apresentam várias explicações para o flagelo dos fogos em Portugal, e muitos deles avançam inclusivamente com soluções para o problema. Conforme disse atrás, e repito, não tenho conhecimentos técnicos para avaliar quais as razões ou quais as soluções mais adequadas. Mas, enquanto cidadão relativamente informado é meu dever revoltar-me contra esta situação, e exigir que algo mude.

A questão fundamental está em saber se, enquanto sociedade, estamos preparados para a mudança necessária. Por exemplo, fala-se na necessidade de fazer um levantamento cadastral exaustivo, com o qual seja possível identificar os proprietários das terras. O objetivo será, posteriormente a essa identificação, proceder à responsabilização dos proprietários pela limpeza do que é seu. Dado o carácter de minifúndio que predomina no nosso território, esse trabalho poderá levar muito tempo. Pois, então é melhor começar já. A limpeza dos terrenos parece ser um aspeto fundamental para abrandar a propagação de um fogo florestal.

Por seu lado, o Estado estará em posição de exigir dos cidadãos se cumprir a sua parte. Parecem existir vários territórios florestais propriedade dos vários organismos estatais, que não estão devidamente limpos e cuidados. Dir-me-ão que num Estado de Direito, bastará fazer as leis, e todos os proprietários terão que cumprir. Bem, a lei já existe, mas pelos vistos não está a ser cumprida na maioria das situações.

Tenho para mim que “dar o exemplo” é a chave. Sejamos mais exigentes com os organismos estatais responsáveis, e saudemos depois que também sejam mais exigentes connosco enquanto cidadãos.

Estamos nós, que herdámos um pedaço de terra no “meio do nada”, preparados para assumir essa responsabilidade cívica, e em simultâneo exigir que os outros (cidadãos e Estado) o façam? Fica a questão para reflexão.

Se nada fizermos, certamente Pedrógão Grande irá repetir-se. É esse o preço que pagaremos. É este o nosso lado negro.

 

Até breve!

Marco Libório

CEO da UWU Solutions / Consultor / Docente

blog@marcoliborio.me

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