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Era uma vez uma dívida… externa

Era uma vez uma dívida… externa

Era uma vez uma dívida… externa

A Joana e o Nuno acabaram de casar. Felizmente já estão os dois empregados. O Nuno trabalha numa consultora, e a Joana é enfermeira. Como “quem casa, quer casa”, a Joana e o Nuno foram ao Banco pedir um crédito à habitação.

Será que a Joana e o Nuno sabem de onde vem o dinheiro para pagar a sua casa?

O nível de poupança em Portugal é extremamente baixo. Melhorou com a crise, dada a retração do consumo, mas ainda assim não suporta as necessidades de financiamento. Ou seja, o nível de poupança das famílias, empresas e Estado deveria ser suficiente para servir de sustentação ao crédito concedido, mas não é.

Na sua génese, o negócio bancário é extramente simples: o banco acolhe as nossas poupanças, e remunera-nos a uma taxa de (suponhamos) 1,5%; simultaneamente, o banco “pega” nessas poupanças e faz um empréstimo à Joana e ao Nuno, no qual cobra 3%. Ou seja, significa isto que as nossas poupanças seriam utilizadas para financiar a aquisição da casa do nosso jovem casal, sendo que o banco teria o seu lucro na “revenda” do dinheiro da nossa poupança.

Imaginemos agora que as nossas poupanças não eram suficientes para o banco financiar aquela aquisição de casa, mas que ainda assim a instituição financeira está interessada em avançar com a operação. Como internamente não existem recursos disponíveis, já que a poupança interna (neste exemplo simples, representada pelas nossas poupanças) não é suficiente, então o banco irá financiar-se lá fora, recorrendo a bancos estrangeiros, que por sua vez captaram poupanças nos seus países. Neste contexto, a casa da Joana e do Nuno terá sido financiada (pelo menos parcialmente) por dinheiro vindo de fora, criando endividamento externo.

Por estes dias foram publicadas as estimativas do FMI para a dívida pública, e Portugal “não aparece bem na fotografia”. Como aspeto positivo, podemos salientar uma ligeira descida em 2016 face a 2015 (128,4% do PIB este ano, contra 129% em 2015), confirmando assim a tendência já observada em 2015 face a 2014. No entanto, entre um grupo de 35 países analisados, o nosso país conquista um “honroso” quarto lugar, tendo à sua frente apenas o Japão, a Itália, e a Grécia com um nível superior de dívida.

Do meu ponto de vista, mais importante que analisar a dívida por si só, é analisar a mesma em relação ao exterior, ou seja, qual o nosso grau de dependência externa. É aqui que reside o nosso verdadeiro problema, e que ditou em grande medida a necessidade de termos tido três resgates nos últimos 40 anos.

Existe um indicador que nos ajuda a compreender este fenómeno. Esse indicador denomina-se “PII – Posição de Investimento Internacional”, e fornece-nos o “balanço” entre o que emprestamos ao exterior, e o que os outros países nos emprestam a nós. Segundo os mais recentes dados do Banco de Portugal, publicados em Setembro, a PII portuguesa no final do segundo trimestre de 2016 situava-se nos -105,7% do PIB. Significa isto que, por cada 100 euros do que produzimos, devemos em termos líquidos (já descontando o que temos a haver do exterior) 105,70 euros.

Analisemos agora em termos comparativos. No final de 2015, Portugal apresentava uma PII de -109,5% do PIB, ao passo que a média da zona euro se situava nos -9,2% do PIB. Por exemplo, a Itália, que aparece à nossa frente nos valores de dívida referidos anteriormente, em 2015 apresenta uma PII de -24,2% do PIB. Ou seja, em cada 100 euros de riqueza produzida em Itália, apenas 24 euros são devidos ao exterior.

A Joana e o Nuno estão sobretudo preocupados em pagar a prestação da casa ao fim do mês. Mas é importante que ambos tenham noção que esse dinheiro sai do país, para pagar a quem financiou indiretamente, através de um banco português, a compra da sua casa. Importa, então, que estejam cientes da relevância desta questão para o nosso futuro enquanto país, nomeadamente para a nossa sustentabilidade e independência económica. Não que o jovem casal possa fazer algo no imediato em relação a isto. Mas se estiverem bem informados, estarão melhor posicionados para exigir aos responsáveis políticos que não tomem (mais) decisões que façam aumentar a nossa dívida externa, pondo em causa o futuro do país. É um dever de cidadania da Joana, do Nuno, e de todos nós, não concorda?

Até breve!

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CEO da UWU Solutions / Consultor / Docente 

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