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Cabral à deriva e o país que queremos ser

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Cabral à deriva e o país que queremos ser

Corria o ano de 1500, quando um navegador português juntou uma frota de quinze navios com o propósito de percorrer a mesma rota de Vasco da Gama, até à Índia. O comércio de especiarias era, nesse tempo, uma fonte rendimento muito importante para o reino, e a rentabilidade era tal que os navegadores portugueses estavam dispostos a correr os enormes riscos de tão longa e tormentosa viagem.

Até então as rotas das especiarias eram feitas pelo mediterrâneo, atravessando o médio oriente até à Índia. No entanto, a instabilidade dos territórios controlados por mercadores islâmicos, fazendo com que essas rotas se tornassem cada vez mais perigosas e dispendiosas, abriu uma “janela de oportunidade” que os portugueses souberam aproveitar.

O referido navegador português iniciou então a sua viagem ao longo da costa ocidental de África, procurando manter a terra à vista como era costume na época. Ao contornar o Corno de África, a frota é surpreendida por ventos invulgarmente fortes, que empurram as caravelas para longe da costa africana. Do outro lado do oceano, os portugueses depararam-se com um território até então desconhecido. Tinham descoberto o Brasil.

Como certamente já terá adivinhado, o navegador a que me refiro chamava-se Pedro Álvares Cabral. Ao chegar ao que é hoje o Brasil, rapidamente percebeu que não estava na Índia, e seguiu viagem em direção ao destino inicial, em busca das tão valiosas especiarias. Cerca de um ano volvido, Cabral regressava a Portugal com apenas quatro dos quinze navios iniciais. Ainda assim, a quantidade de especiarias era suficiente para que a viagem tivesse sido altamente lucrativa. No seu regresso, Cabral reportou ao Rei D. Manuel I os acontecimentos da sua viagem, incluindo a inesperada descoberta do novo continente.

Curiosamente, passariam vinte e cinco anos desde a descoberta do Brasil até que o Rei enviasse alguém de volta ao novo território. Nos séculos seguintes o Brasil tornou-se “só” na principal fonte de riqueza da coroa portuguesa. É espantoso como um acontecimento acidental mudou tão radicalmente a história do nosso país, e nos marcou de forma tão profunda enquanto nação.

Honestamente, considero que este acontecimento marcante traduz em grande medida o que somos enquanto país. Desde logo demonstra a nossa capacidade de “desenrascanso”. Cabral não se desorientou com o imprevisto. Após o desvio forçado, seguiu a sua viagem em direção à Índia, e concretizou o objetivo inicial. Por outro lado, mostra a nossa incapacidade para identificar e aproveitar oportunidades. Ainda hoje assim é.

Atualmente passamos a vida a discutir o défice, o orçamento, a dívida, o crescimento, os aumentos da função pública, ou as 35 horas. Mas não abordamos o essencial: qual a estratégia para resolver, estruturalmente, os nossos problemas e fazermos avançar o nosso país no sentido dos objetivos que pretendemos alcançar. Ora, o problema começa logo na definição dos objetivos. Por exemplo, queremos ser um destino turístico? Se sim, de que tipo? De massas ou de exclusividade? Para reformados ou para jovens? Ou queremos atrair investimento estrangeiro através de novas empresas? Não é possível sermos tudo ao mesmo tempo, pois dessa forma não seremos os melhores em nada.

O que queremos ser enquanto país? Esta é a questão fundamental. Que objetivos queremos atingir, de modo sermos uma sociedade mais desenvolvida, social e economicamente?

Existe uma definição clara de objetivos para Portugal? Não me apercebi de nada até agora. Devo andar desatento…

Sem objetivos claros, não existe estratégia. Existe um conjunto de medidas avulsas e desarticuladas. Um exemplo recente: criámos (na verdade não criámos, apenas copiámos o que outros países já faziam) o golden visa para atrair investimento estrangeiro. Neste âmbito, “vendemos” ao investidor não europeu a possibilidade de poder circular pelos países do espaço Shenguen, a troco da compra de um imóvel com um valor mínimo de 500 mil euros. Simultaneamente preparamo-nos para criar um imposto especial sobre imóveis acima daquele valor. Não discuto a justiça desta medida (fica para outro artigo…), apenas questiono a coerência entre ambas as medidas, aparentemente antagónicas.

Ao contrário de Cabral, o Portugal de hoje navega sem rumo. Cabral sabia o que queria e onde queria chegar. Portugal não tem rumo estratégico, não se identificam objetivos claros, não se percebe o que queremos ser enquanto país. Mas já no Portugal contemporâneo de Cabral assim era, em certa medida. E a prova está no facto de a época de ouro do império português se basear num acontecimento obra do acaso, e não de qualquer planeamento ou estratégia.

Será que aguardamos por um “novo Brasil”? Algo que, resultante da conjugação dos astros, nos traga fortuna e resolva todos os nossos problemas? Porventura é por isso que jogamos tanto no Euromilhões. Temos sido assim em novecentos anos de história. Pode ser que consigamos mudar… e continuar a ser portugueses.

Até breve!

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CEO da UWU Solutions / Consultor / Docente 

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