Empreendedorismo

Deixómetro

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Recentemente, numa das minhas regulares visitas ao supermercado com o intuito de reforçar o stock lá de casa, deparei-me com a palavra que constitui o título deste artigo. Encontrei-a numa embalagem de papa. Trata-se de uma iniciativa de uma marca de alimentos para crianças. O “Deixómetro” constitui um desafio aos pais, no qual é possível avaliar se damos liberdade aos nossos filhos e promovemos a sua independência, ou se pelo contrário somos demasiado protetores. Não deixa de ser um passatempo, com um caráter lúdico, mas deverá fazer-nos pensar sobre que próxima geração estamos a “construir”.

Pais da minha geração, que nascemos entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década de 1980, não estaremos a ser demasiado protetores, e porventura prejudicarmos o desenvolvimento dos nossos filhos? Obviamente que o fazemos com a melhor das intenções. Todos nós queremos o melhor para os nossos filhos. Mas será que não estaremos a ser “hiper-protetores”?

Penso nisto recorrentemente. Sou pai, e só por esse facto considero ter a obrigação de, nessa qualidade, refletir sobre este assunto. Mas também profissionalmente esta questão me levanta interrogações. Não raras vezes, em contexto de processo de recrutamento para a minha empresa, eu me deparo com candidatos que demonstram uma significativa falta de pró-atividade, muitos deles já perto dos 30 anos, mas que pouco ou nada fizeram pelas suas carreiras, continuando na generalidade dos casos a viver em casa dos pais, e em total dependência económica destes. Seremos a única empresa a deparar-se com este problema?

Em contexto de mercado de trabalho, o ambiente é naturalmente competitivo, e as empresas procuram os melhores. Hoje, mais importante que a média obtida no curso superior, é o foco na solução e não no problema, é saber trabalhar em equipa, é procurar superar-se todos os dias, é ter a noção de criação de valor. Diria que, numa palavra, é ser “pró-ativo”. É este perfil de pessoas que as empresas procuram. Mas será este o perfil que fomentamos nos jovens, enquanto filhos ou educandos?

Pensemos nisto de uma forma mais abrangente. Na sociedade atual as crianças e jovens passam a maioria do seu tempo na Escola. Os pais continuam a ter um papel fundamental na educação dos seus filhos, mas esse papel é hoje mais do que nunca partilhado com a Escola.

Será que a Escola de hoje está a contribuir para que os nossos jovens sejam pró-ativos, criativos, empreendedores, independentes? Um modelo de ensino em que obrigamos os jovens a estarem horas a fio sentados numa sala, quietos e calados, num papel passivo de assimilarem matéria, para depois a “despejarem” num teste escrito, prepara-os convenientemente para os desafios da sociedade do futuro? Qual a razão de a Escola não se adaptar, e continuar a ser, no essencial, o que era há 100 anos atrás?

Na minha perspetiva, é fundamental que os alunos sejam munidos pela Escola de um conjunto de capacidades e competências fundamentais para mais facilmente ultrapassarem os vários obstáculos que a vida lhes trará. Defendo uma abordagem mais ativa, mas empreendedora, que envolva todos (alunos, pais, professores, etc.). Para que isto aconteça, qualquer atividade na escola deve desenvolver um conjunto alargado de competências empreendedoras entre os alunos (e porque não dizê-lo, entre os professores, diretores e pessoal não-docente). Subjacente a qualquer iniciativa deve estar a aplicação da metodologia aprender-fazendo (conhecida na literatura anglo-saxónica por learning by doing). Para além disto, o trabalho em equipa, a tomada de decisões, a capacidade de arriscar, e a focagem em soluções, deve constituir a matriz principal de qualquer atividade escolar. Dever-se-á procurar, simultaneamente, diversificar tanto quanto possível lançando constantemente novos desafios aos alunos, o que naturalmente os motivará, mas também permitir a todos demonstrarem o que têm de melhor.

As competências a adquirir deverão sustentar uma atitude permanentemente empreendedora, que permita influenciar os alunos no sentido de estes procurarem superar-se diariamente. Mais que ter ideias, o aluno terá que ter a capacidade de as pôr em prática. Mais que trabalhar isoladamente, o estudante tem que saber funcionar em grupo. Mais do que recetor de conhecimentos, o aluno potenciará as suas competências racionais, emocionais e relacionais. A criatividade, a iniciativa, a inovação, a pró-atividade, o esforço, a exigência, o mérito, são alguns conceitos nucleares em todo este processo.

Mas isto é só a “ponta do iceberg”. É imprescindível percorrer um caminho até se chegar ao aluno, isto é, ter-se-á que desenvolver um trabalho intenso junto dos restantes “atores”, para que seja efetivamente possível construir um novo processo educativo.

Os pais têm um papel fundamental neste processo. São certamente um dos “atores principais”. E são-no por duas vias. Por um lado, procurarão educar os seus filhos tendo por base princípios como a independência, a liberdade, e a responsabilidade. Por outro, deverão ser mais exigentes com a Escola, levando a que esta redefina o seu modelo e construa uma abordagem verdadeiramente adaptada à sociedade atual.

Enquanto empregadores podemos exigir, se enquanto pais não fizermos algo para mudar a situação? Fica a questão para refletirmos…

Até breve!

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CEO da UWU Solutions / Consultor / Docente 

blog@marcoliborio.me

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One thought on “Deixómetro

  1. Olá Marco. Excelente análise e até ligo com algo que discutia com uma colega hoje ao almoço, a valorização da “criação dos cidadão do futuro”. Quero com isto dizer que há que saber valorizar como sociedade o tempo que se dedica a acompanhar/ensinar/educar os nossos filhos (na qual os pais estão envolvidos e são os principais responsáveis). Isto trás-nos à lembrança a responsabilidade e o dever que temos como pais de conseguir arranjar o tempo que os nossos filhos necessitam. Esta valorização deve ser transversal ao estado, aos empregadores e à própria cultura que não deve penalizar quem é pai. Exemplo, eu valorizo bastante todos os Pais (em especial as mães) que para além das suas obrigações profissionais garantem as suas obrigações como Pais. Não me limito a dizê-lo, como empregador procuro sempre encontrar soluções para que isso seja sentido na prática, ou seja, para apoiar os empregados na extensão de apoio à família.

    Quanto a gerações, não sei, posso dizer que tenho colaboradores com menos de 30 anos que são bastante pro-activos, posso também dizer que procuro incutir uma cultura forte de confiança uns nos outros e de não ter medo de errar na procura de soluções. Abraço.

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