Empreendedorismo

“Silicon Valley” da Europa

“Silicon Valley” da Europa

“Silicon Valley” da Europa

“Encontrei um Portugal extremamente vibrante. (…) Na maioria dos últimos 400 anos, Portugal fez comércio com o resto do mundo. Por isso é uma nação muito focada, está no seu ADN fazer coisas e vendê-las em qualquer parte do mundo. (…) O passado é passado, e há sete anos houve uma geração que se concentrou em fazer um futuro melhor. Porque para essas pessoas não interessa a política, as decisões do FMI, ou da UE. Sejam quais forem as circunstâncias, essas pessoas estão determinadas em construir grandes coisas. É um inesperado nível de positivismo. E isso sente-se ao andar em Portugal”.

O autor destas palavras é Paddy Cosgrave, cofundador da Web Summit, em entrevista ao Diário Económico, no passado dia 5 de Fevereiro. A Web Summit é considerado um dos mais importantes encontros mundiais de empreendedorismo e tecnologia, e realiza-se desde 2010 em Dublin, na Irlanda. Neste ano de 2016, e nos próximos três anos, a Web Summit irá realizar-se noutro local. Sabe onde? Será Silicon Valley? Londres? Berlim? Xangai? Não, é mesmo em Lisboa. A propósito desta mudança para Lisboa, Paddy Cosgrave afirmou que “é uma cidade mágica e com tanta história. Estou muito contente por podermos chamar Lisboa a nossa casa em 2016.”.

Estas palavras deviam-nos fazer refletir enquanto portugueses. Na parte que me toca, vou partilhar consigo alguns pensamentos, com base naquelas declarações e no que observo ao meu redor.

Há cerca de 3 anos estive em Silicon Valley, na Califórnia. Foi uma experiência marcante para mim. Compartilharei consigo os detalhes desta viagem num dos meus próximos artigos. Neste contexto, recordei esta viagem a propósito das declarações de Paddy Cosgrave. Silicon Valley é de facto um local diferente, ainda longe da realidade portuguesa. Após regressar, várias pessoas me perguntavam “mas que diferença tão grande existe?”. Usei uma metáfora para lhes explicar: num determinado local do mundo existe um rio, que corre da montanha, onde nasce, para o mar; nesse local todas as pessoas são levadas a nadar em direção à montanha; quando alguém mergulha no rio e começa a nadar naquela direção, obviamente sente enormes dificuldades, pois a corrente está contra si; necessitará de fazer um enorme esforço para se conseguir deslocar, e terá que parar inúmeras vezes na margem para descansar; terá até de acautelar-se para não ser empurrado para trás. Noutro local do mundo, distante daquele, existe um rio semelhante; no entanto verifica-se uma diferença fundamental: as pessoas nadam em direção ao mar, isto é, têm a corrente a seu favor; isto permite-lhes, com uma dose controlada de esforço, fazer muito mais viagens no rio, pois a água ajuda-os a deslocar-se, ao invés de os dificultar.

Nós em Portugal não somos piores “nadadores” que os de Silicon Valley. Não somos menos competentes, menos inteligentes, menos eficientes ou menos capazes. Simplesmente o sistema de Silicon Valley funciona de forma a potenciar o empreendedorismo. Lá é quase impossível não empreender. Inclusivamente a lógica da tentativa-falhanço é valorizada, pois demonstra resiliência, persistência e vontade de vencer. Aqui, o nosso “rio” corre quase sempre contra o empreendedor, pois grande parte das vezes criar um negócio é uma soma inacreditável de obstáculos. Temos vindo a melhorar, é uma verdade, mas muito caminho há ainda por percorrer. Portugal já foi um exemplo de empreendedorismo no passado, quando deu novos mundos ao Mundo. Porque regredimos? Porque somos hoje uma gente limitada pelo medo?

Portugal está longe de ser um paraíso para os empreendedores. Mas isso impediu que muitas startups portuguesas sejam hoje um sucesso internacional? Não. Isso impediu que a Web Summit escolhesse Portugal? Não. Imaginemos o que aconteceria se o nosso país fosse capaz de construir um ecossistema verdadeiramente potenciador de empreendedores. A Web Summit pode ajudar a mudar o panorama, mas não será certamente suficiente.

É possível transformarmos Portugal num “Silicon Valey” da Europa? Existe algo a impedir-nos? Só nós próprios.

Até breve!

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CEO da UWU Solutions / Consultor / Docente 

blog@marcoliborio.me

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3 thoughts on ““Silicon Valley” da Europa

  1. Maria José Madeira says:

    Não podia concordar mais.
    Temos de ter orgulho do que fomos no passado, e do que temos no país a todos os níveis, só assim teremos condições para abrilhantarmos o futuro.
    O Fado (que adoro), não pode ser o nosso lema de vida, da desgraça, da tristeza, de self pity.
    Obrigada pelas suas palavras.

    • Cara Maria José Madeira, muito obrigado pelo seu comentário. De facto nós temos uma certa tendência para o fatalismo, e para termos pena de nós próprios. Observo alguma mudança de mentalidades, mas ainda ténue. Espero sinceramente que as novas gerações entendam que o futuro tem que ser necessariamente diferente, e que possam tirar verdadeiro proveito do enorme potencial que temos, enquanto país. Assim seja! Bem-haja, e até breve.

  2. Miguel Mascarenhas says:

    Excelente analogia (a do Rio), muito poderíamos escrever sobre o que caracteriza a contra corrente em Portugal mas prefiro continuar a manter o foco na criação de valor e em empreender. Assim os meus parabéns a todos os empreendedores que existem em Portugal nas mais variadas áreas e em particular ao meu amigo Março Libório com quem empreendo há mais de 5 anos. Abraço.

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